Dica de Livro + Jogo: Não tenho boca, e preciso gritar – Harlan Ellison

 

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Ele. Ela. Deus no papel de Papai Tresloucado.

 

Respeitável público! Não-respeitável público! Não-público! Estamos de volta com mais uma sensacional postagem do Irônica, dessa vez com uma dica envolvendo um conto nada perturbador de Harlan Ellison.

 

O conto: A Guerra Fria deu origem à Terceira Guerra Mundial, que se mostrou complicada demais de se resolver sem ajuda de computadores melhores que os da época. Então, as potências (China, Rússia, EUA) deram início à construção do AM (“automanipulado”), um supercomputador que resolveria o conflito. Logo, o mundo todo estava cheio de AMs, que um belo dia, tomou consciência de si mesmo e resolveu exterminar a humanidade, preservando (e torturando com criatividade perversa) por anos a fio somente cinco pessoas: Gorrister, Benny, Nimdok, Ted e Ellen.

 

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Skynet curtiu isso.

 

O autor: Harlan Jay Ellison é um escritor estadunidense, nascido em 27 de maio de 1934, e escreve geralmente nos gêneros de ficção científica e horror.

Serviu ao exército dos EUA entre 1957 e 1959, e depois disso, passou a escrever contos eróticos sob o pseudônimo de Cordwainer Bird. Em uma das revistas em que era colaborador, publicou sob o nome de Harlan Ellison, e passou a assinar como Cordwainer somente quando não estava muito feliz sobre o uso ou a edição de sua obra.

Foi para Hollywood em 1962 e começou a escrever roteiros para séries de TV, como The Man From U.N.C.LE, Star Trek (Jornada nas Estrelas), The Flying Nun, entre outras. Inclusive, seu roteiro para o episódio “The City on the Edge Forever”, de Star Trek, é considerado por muitos críticos como o melhor da série clássica.

 

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Harlan Ellison, segundo página do IMDb

 

Seu conto clássico, “I Have No Mouth, and I Must Scream” (“Não tenho boca e preciso gritar”), foi publicado em 1967, numa alegoria moderna do Inferno, onde um deus-computador passa a torturar cinco pessoas por toda a eternidade (ou quase isso).

O jogo: Desenvolvido pela Cyberdreams e distribuído pela Nightdive Studios, “I Have No Mouth and I Must Scream” foi lançado recentemente, em 31 de outubro de 1996, para PC.  É um jogo point and click (clicar e apontar) de aventura, hoje disponível na Steam por R$11,99 (no decorrer do ano rolam umas promoções na plataforma, então é bem possível encontrá-lo mais barato que isso).

Como toda transição de mídia, há uma ou outra alteração referente ao material original. É um jogo com visual datado, afinal, estamos em 2017, o game tem 21 anos de existência, e a jogabilidade pode parecer estranha hoje (“Clicar e apontar? Como assim? Não tem tiro? Jogo isso como?”). Mas à época, muitos outros adventures foram lançados e faziam um relativo sucesso.

Você percorre o jogo de AM, na verdade. Logo na tela de início, você pode escolher um dos personagens disponíveis: Gorrister, Ellen, Ted, Nimdok e Benny. Cada um tem uma “aventura” em que o computador pega um de seus defeitos e cria cenários baseados nele, em seu infinito passatempo de atormentar o que poupou da humanidade.

Finalizando a trama com um, você volta para o começo, escolhe o outro, e por aí vai, até o final. Eu achei bastante divertido (talvez por ter gostado muito do conto que serviu como base). Abaixo, um vídeo em que jogo com o Benny (tentei gravar o áudio, mas…enfim):

 

                                                               Hurts, hurts, hurts!

Harlan dublou AM no game, e também permitiu a inclusão de uma cópia do conto, em inglês, na compra do jogo.

 

É isso, pessoal. Espero que tenham gostado da dica de hoje. Divirtam-se enquanto usam seus computadores 😀

 

Fontes: Aqui, aqui, e aqui também.

Feliz Ano Novo :D

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Essa foto é equivalente àquela do pavê: Precisa ter em toda virada de ano.

 

Olá, irônic@s! Tudo bem aí com vocês?

“Meu Deus do céu, ele postou novamente”. Se vocês estão surpresos, imaginem eu! 😀

Brincadeira. Não consigo e nem posso deixar o Irônica à deriva. Sem sombra de dúvidas, ele foi (e todos vocês, leitores <3) uma ferramenta fundamental para manter minha sanidade no lugar há alguns anos.

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Gerador Memes Ponto Com. Porque sim.

Mas engana-se quem pensa que o Irônica está morto. Acho que nunca postei esses links aqui (dort), mas se liguem:

Irônica no Facebook: Sim! Um dos primeiros canais criados além desse no WP.

Irônica no Twitter: Ainda é bastante utilizado, principalmente como…hmn…”plataforma de lançamento” ou um hub de links relacionados à página.

Irônica no Instagram: Meu Deus do céu, Berg, como essa plataforma funciona excepcionalmente bem para o “novo formato” da página. Lembram daquela seção de postagens com fotos/imagens da semana que costumávamos ter? Evoluiu e virou esse perfil no Insta. Postagens rápidas (e tiradas sensacionais) com poucos cliques. Será o futuro definitivo do IL? Who knows?

Tenho alguns projetos paralelos também (como esse aqui envolvendo Teatro) que vez ou outra acabam esbarrando em Literatura, então, para quem se interessar… 😛

Por um tempo, até rolou um perfil no Google Plus também. Mas, infelizmente, não achei jeito de integrar a conta com Twitter e Instagram e etc. A maior parte das publicações agora vem de lá, então o IL do Google+ morreu.

“Ah, mas Jefferson, e as análises de livros, escolas literárias, toda aquela coisa linda e sensacional que você postava lá no princípio?”, vocês podem se perguntar.

Pois é. “No princípio, era o Verbo”. Tudo aquilo vai continuar, maaaaaas como devem ter notado, o formato (e isso veio de um novo direcionamento, também) mudou, e é um pouco complicado postar conteúdos densos naquelas plataformas que citei. Mas, NÃO, as análises e críticas e tudo o mais não vão parar. Vez ou outra haverá uma postagem daquelas por aqui – e bem grande, pra compensar a demora. E ela será anunciada, olhem só, no Twitter, Instagram e Facebook do IL ❤

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Imagem de baixa resolução mesmo, por motivos de: Poxa, é Ano Novo, caras.

Bom, eu acho que é isso. O Irônica Literatura continua, tanto por aqui quanto pelos meios acima. É o mínimo que faço por um projeto que significou – e ainda significa – tanto.

Muito obrigado a todos que continuam dando um pulinho aqui (não parem, sério). E Feliz Ano Novo <3.

 

 

 

Os números de 2015

Eu realmente espero que 2016 seja um ano melhor, para o Irônica e para todos nós.

Vamos (re)começar, pessoal. Feliz 2016!

Os duendes de estatísticas do WordPress.com prepararam um relatório para o ano de 2015 deste blog.

Aqui está um resumo:

Um bonde de São Francisco leva 60 pessoas. Este blog foi visitado cerca de 940 vezes em 2015. Se fosse um bonde, eram precisas 16 viagens para as transportar.

Clique aqui para ver o relatório completo

Microcosmo, resumo e demais assuntos. Estamos de volta!

Hey Irônicos e Hey, Irônicas! Tudo bem? Saudades? Respondam um por vez, sem tumultos 😀

Outra hora explico o motivo da minha ausência. Até lá, vamos falar de livros \o/

Tenho lido muitas HQs, e a última que chamou minha atenção foi essa:

Deus ama, o homem mata, de Chris Claremont e Brent Eric Anderson. ... E sim, continuo sem saber tirar fotos boas.

Deus ama, o homem mata, de Chris Claremont e Brent Eric Anderson.

 

Microcosmo.

Esse livro particularmente ressaltou a ideia de que toda obra é um espelho, ou até mesmo uma caricatura da realidade.

Fiquei pensando na quantidade de microcoisas representadas em poucas páginas. Tem de tudo: amor, guerra, ódio, desespero, esperança, arrependimento, ambição, hipocrisia. Um universo contido em si mesmo. Se alguém fosse partir do planeta e ficasse com saudades de casa, era só abrir uma publicação dessas e deparar-se com um retrato da nossa sociedade.

A história.

Foi inevitável. Toda vez que William Stryker aparecia na página, eu o associava com uns e outros líderes religiosos (do ódio). A graphic novel, publicada em 1982, permanece bastante atual.

  • Resumão: Em meio à onda de ódio aos mutantes, um grupo de extermínio conhecido como Pacificadores começa a eliminar os homo superior. O reverendo William Stryker, líder de uma seita religiosa e também dos assassinos, prepara uma emboscada para Xavier e planeja usá-lo como arma contra os mutantes. Os X-Men então unem forças à Magneto para combater a ameaça.
  • Resumão by Narrador da Globo: Uma turminha pra lá de diferente, aprontando altas confusões em X-MEN: Deus ama, o homem mata.

E é isso. Inté \o

Domingo Literário – “Algumas reflexões sobre o sapo comum”, de George Orwell

Hey, irônicas e irônicos, e Hey! Irônicos e irônicas!

No Domingo Literário de hoje (um pouco tarde, talvez :D), um ensaio de Eric Arthur Blair (aka George Orwell), que acredito, é uma excelente pedida para esse início de ano 😀

 

Algumas reflexões sobre o sapo comum

 

Antes da andorinha, antes do narciso e não muito depois do galanto, o sapo comum saúda a chegada da primavera à sua maneira, que é emergir de um buraco no solo, onde permaneceu enterrado desde o outono anterior, e rasteja até a mais próxima porção de água apropriada. Alguma coisa — algum tipo de tremor na terra, ou talvez uma pequena elevação da temperatura — lhe contou que está na hora de acordar, embora alguns sapos, ao que parece, durmam sem parar e de vez em quando percam um ano; seja como for, mais de uma vez eu os desenterrei, vivos e aparentemente saudáveis, no meio do verão.

Nesse período, depois de seu longo jejum, o sapo tem um aspecto muito espiritual, como um anglo-católico rígido perto do final da Quaresma. Seus movimentos são lânguidos, mas resolutos, seu corpo está encolhido e, por contraste, seus olhos parecem anormalmente grandes. Isso nos permite notar — o que talvez não víssemos em outra época — que o sapo talvez tenha o olho mais bonito do que qualquer criatura viva. É como ouro, ou mais exatamente, é como a pedra semipreciosa dourada que às vezes vemos em anéis com sinete e que acho que se chama crisoberilo.

Depois de entrar na água, o sapo se concentra durante alguns dias em aumentar sua força comendo pequenos insetos. Dentro em pouco, ele já inchou até seu tamanho normal de novo, e então passa por uma fase de intensa sexualidade. Tudo o que ele sabe, ao menos se é um sapo macho, é que quer pôr seus braços ao redor de alguma coisa, e se lhe oferecemos um graveto, ou até mesmo um dedo, ele se agarra nele com força surpreendente e demora um bom tempo para descobrir que não se trata de uma sapa. Com frequência, topamos com uma massa de dez ou vinte sapos rolando na água, ou agarrados uns aos outros sem distinção de sexo. Aos poucos, no entanto, eles se separam em casais, com o macho devidamente sentado nas costas da fêmea. Agora, é possível distinguir entre os dois, porque o macho é menor, mais escuro, e se instala nas costas, com os braços firmemente presos ao redor do pescoço da fêmea. Depois de um ou dois dias ocorre a desova em longas fieiras que serpenteiam entre os juncos e logo se tornam invisíveis. Poucas semanas depois, a água pulula de minúsculos girinos que crescem rapidamente, desenvolvem patas traseiras, depois dianteiras, e perdem as caudas. Por fim, por volta de meados do verão, a nova geração de sapos, menores do que a unha de um polegar, mas perfeitos em todos os detalhes, salta para fora da água e começa o jogo de novo.

Menciono a desova dos sapos porque é um dos fenômenos da primavera que mais profundamente me atraem, e porque o sapo, ao contrário da cotovia e da prímula, jamais ganhou muita força dos poetas. Mas estou consciente de que muita gente não gosta de répteis ou anfíbios e não estou sugerindo que para desfrutar da primavera seja preciso se interessar por sapos. Temos também o açafrão, o tordo, o cuco, o abrunheiro e outros. O importante é que os prazeres da primavera estão disponíveis a todos e não custam nada. Até mesmo na rua mais sórdida, a chegada da primavera se faz notar por um ou outro sinal, seja apenas por um azul mais claro entre as chaminés ou o verde vívido de um sabugueiro que brota num lugar devastado pela guerra. Com efeito, é notável como a Natureza ontinua a existir não oficialmente, por assim dizer, no centro de Londres. Vi um francelho voando sobre o gasômetro de Deptford e ouvi uma performance de primeira de um melro na Euston Road. Deve haver algumas centenas de milhares, se não milhões, de pássaros vivendo dentro de um raio de seis quilômetros, e é bastante agradável saber que nenhum deles paga nem meio vintém de aluguel.

No que diz respeito à primavera, nem mesmo as ruas estreitas e sombrias em torno do Banco da Inglaterra conseguem excluí-la. Ela se infiltra por toda parte, como um desses novos gases venenosos que passam por todos os filtros. Costuma-se chamar a primavera de “milagre”, e nos últimos cinco ou seis anos essa figura de linguagem cediça ganhou vida nova. Depois do tipo de inverno que tivemos de suportar recentemente, a primavera parece de fato milagrosa, porque se tornou cada vez mais difícil acreditar que vai acontecer de fato. Desde 1940, a cada fevereiro, me vi pensando que dessa vez o inverno será permanente. Mas Perséfone, como os sapos, sempre se ergue dos mortos mais ou menos na mesma ocasião. De repente, perto do final de março, o milagre acontece e o bairro miserável e decadente em que vivo se transfigura. Lá na praça, os alfeneiros enfarruscados ficaram verdes e reluzentes, as folhas estão engrossando nas castanheiras, os narcisos nasceram, os goivos estão brotando, a túnica do policial tem positivamente um matiz agradável de azul, o peixeiro saúda seus fregueses com um sorriso e até os pardais apresentam uma cor bem diferente, tendo sentido a fragrância do ar e criado coragem para tomar um banho, o primeiro desde setembro passado.

É um pecado sentir prazer na primavera e em outras mudanças sazonais? Para dizer com mais exatidão, é politicamente repreensível, enquanto estamos todos gemendo — ou ao menos deveríamos estar gemendo — sob os grilhões do sistema capitalista, salientar que, com frequência, vale mais a pena viver por causa do canto de um melro, de um olmo amarelo em outubro, ou de algum outro fenômeno natural que não custa dinheiro e não tem aquilo que os editores de jornais de esquerda chamam de ângulo de classe? Não há dúvida de que muita gente pensa assim.

Sei por experiência própria que uma referência favorável à “Natureza” em um de meus artigos está sujeita a me render cartas agressivas, e embora a palavra-chave dessas cartas em geral seja “sentimental”, duas ideias parecem se misturar nelas. Uma é que qualquer prazer no processo concreto da vida estimula uma espécie de quietismo político. Dizem que as pessoas devem estar descontentes e é nossa função multiplicar nossas carências e não apenas aumentar nosso desfrute das coisas que já temos. A outra ideia é que estamos numa época de máquinas e que não gostar delas, ou até querer limitar sua soberania, é ser retrógrado, reacionário e levemente ridículo. Com frequência, essa ideia vem apoiada por uma declaração de que o amor à natureza é uma fraqueza de gente urbana que não tem noção de como a natureza é de fato. Aqueles que têm de lidar efetivamente com o solo, diz o argumento, não amam o solo e não têm o menor interesse em pássaros ou flores, a não ser de um ponto de vista estritamente utilitário. Para amar o campo, é preciso morar na cidade e dar apenas uma perambulada ocasional de fim de semana, na época mais quente do ano.

É possível demonstrar que essa última ideia é falsa. A literatura medieval, por exemplo, incluindo as baladas  populares, está cheia de um entusiasmo quase georgiano pela Natureza, e a arte dos povos agrícolas, como os chineses e japoneses, está sempre centrada em torno de árvores, pássaros, flores, rios, montanhas. A outra ideia me parece errada de uma forma mais sutil. Com certeza, devemos estar descontentes, não devemos  simplesmente encontrar maneiras de fazer o melhor de um emprego ruim, mas, se matarmos todo o prazer no processo concreto da vida, que espécie de futuro estamos preparando para nós mesmos? Se um homem não pode apreciar o retorno da primavera, por que deveria ficar feliz numa utopia que economizasse trabalho? O que ele fará com o lazer que a máquina lhe dará? Sempre suspeitei que se nossos problemas políticos e econômicos forem alguma vez efetivamente resolvidos, a vida se tornará mais simples, em vez de mais complexa, e que o tipo de prazer que obtemos ao descobrir a primeira prímula parecerá maior do que o tipo de prazer que obtemos tomando um sorvete ao som de um jukebox. Penso que ao reter o amor de nossa infância por coisas como árvores, peixes, borboletas e — para voltar ao meu primeiro exemplo — sapos, tornamos mais provável um futuro pacífico e decente, e que ao pregar a doutrina de que nada deve ser admirado, exceto aço e concreto, apenas tornamos mais certo que os seres humanos não terão escape para sua energia excedente, exceto no ódio e no culto ao líder.

De qualquer modo, a primavera chegou, até no centro de Londres, e eles não podem impedir você de desfrutá-la. Eis uma reflexão gratificante. Quantas vezes fiquei vendo os sapos se acasalarem, ou um par de lebres disputando uma luta de boxe no campo de trigo, e pensem em todas as pessoas importantes que me impediriam de apreciar isso se pudessem. Mas felizmente não podem. Enquanto você não estiver de fato doente, faminto, assustado ou enclausurado numa prisão ou num campo de férias, a primavera ainda será a primavera. As bombas atômicas estão se empilhando nas fábricas, a polícia está rondando pelas cidades, as mentiras jorram dos alto-falantes, mas a Terra ainda gira em torno do Sol, e nem os ditadores ou burocratas, por mais que desaprovem o processo, são capazes de impedi-lo.

 ***
 ORWELL, George. Como morrem os pobres e outros ensaios / George Orwell; Seleção de textos João Moreira Salles e Matinas Suzuki Jr.; Organização Matinas Suzuki Jr.; Prefácio Lionel Trilling; Tradução Pedro Maia Soares. - São Paulo: Companhia das Letras, 2011.